Podia ter sido o veículo perfeito para a reabilitação de Eddie Murphy (que ameaçou com "Dreamgirls" e estragou tudo logo a seguir, qual herói dramático, com "Norbit"). Mas não é. É apenas um filme que entretém sem encantar. Murphy parece fazer frete em tantos momentos que não permite apreciar devidamente o vislumbre do homem que deu vida a Axel Foley. Matthew Broderick parece velho e cansado e é bastante provável que isso se verifique porque está realmente velho e cansado. Sobram Ben Stiller, Casey Affleck e Alan Alda para manter a torre na vertical.
Joseph Gordon-Levitt (condenado a referência eterna como "o miúdo do Terceiro Calhau a Contar do Sol") torna a provar ser um enorme actor. Seth Rogen, ultrapassada a dieta e algumas opções de carreira infelizes, parece voltar a aproximar-se do encanto bonacheirão/narcótico que lhe deu nome. Anna Kendrick não merecia ter Twilights no currículo. Anjelica Huston continua a ser Anjelica Huston. E uma abordagem de um tema complicado que apela inevitavelmente à lágrima, mas provocando gargalhadas inesperadas.
Se o lamentável quarto episódio de Indiana Jones tivesse seguido um rumo semelhante e escapasse à imbecilização que parece caracterizar tudo em que George Lucas toca nas últimas décadas, a satisfação não seria total, mas, pelo menos, não teria traumatizado tanta gente. Não era difícil adaptar Tintin ao cinema, mas Spielberg consegue preencher os requisitos para uma adaptação capaz, mesmo sem passar daí. Aposta ganha na opção pela animação digital com captura de movimentos, 3D convincente (uma raridade) e, mais uma vez, um elenco a tornar desaconselhável a opção alfabetizada pela versão dobrada em português.
O mais espantoso é que, ao terceiro filme, continua a funcionar. Já não cheira a fresco e os sustos tornam-se mais previsíveis e e mirabolantes, mas ainda está lá o essencial. O próximo deve começar a chatear.
O último de João Canijo é um filme de pretensões múltiplas. Pretende aproximar-se de uma realidade do país e acaba por ser um entrelaçar de historietas de folhetim filmado com gosto e valentia. Pretende ser mais substância que estilo e acaba por ser o oposto. Pretende ser um veículo para grandes desempenhos de vários actores e consegue. Por fim, pretende apontar o foco para um certo estrato sociocultural que, por ser maioritário, adquire a banalidade da omnipresença e acaba por consegui-lo menos do que consegue ser um olhar fascinado e sobranceiro de uma certa elite privilegiada sobre o "povinho" que vive nos subúrbios, vê a TVI e ouve o Tony Carreira.
Um aviso: ao contrário do que se lê em letras garrafais no cartaz de O Discurso do Rei, não se trata de "um filme que nos eleva o espírito". Nas duas ocasiões em que tive o grande prazer de o ver (ao filme e não ao cartaz), não senti nem o espírito nem qualquer outra parte integrante do meu eu metafísico elevar-se. A única coisa que se elevou em mim (calma...) foi o vómito ao ver o dito cartaz, percebendo que um dos melhores filmes do ano (se houver justiça no universo, ganhará vários Óscares - pelo menos o de melhor filme e melhor actor) fica assim a parecer uma espécie de caca de auto-ajuda. Obrigadinho.
Primeiro, um valente bardamerda para o responsável pelo título com que o filme circula por cá: The Fighter - Último Round, este belo híbrido de título original com palermice pseudo-criativa de uma cabecinha muito deficiente e nunca medicada. Segundo, The Fighter é muito mais do que um filme de boxe. Terceiro, Christian Bale podia aproveitar a voz de Dicky Eklund para o próximo Batman e esquecer aquele sussurro idiota.
Nunca quis ser bailarina. Sei que isto vai chocar muita gente, mas é a verdade. E sempre calculei que uma actividade artística de esforço físico intenso em que os praticantes usam calçado feito de gesso e precisam de manter um peso médio de trinta quilos até se reformarem aos 23 anos tivesse um fundo sinistro. Talvez por isso, Cisne Negro conseguiu apenas perturbar-me moderadamente. Mas gosto de imaginar as caras horrorizadas de quem entrou na sala de cinema esperando apenas tutus e saltinhos graciosos. Sou uma pessoa horrível a esse ponto.
Este blog é velho ao ponto de ter sobrevivido de um filme de Mike Leigh ao seguinte. Até era capaz de jurar que Vera Drake também estava algures aqui enfiada, mas afinal não. Ora bem. A única queixa que uma pessoa séria poderia formular acerca de Happy-Go-Lucky diria respeito ao espírito militantemente positivo e sorridente da protagonista, que andava sempre muito perto de tornar a magistral Poppy de Sally Hawkins na pessoa mais irritante do mundo. Numa Floribella global, se quiserem. Nunca acontece, felizmente, nem o realizador permitiria que acontecesse porque sabia muito bem o que queria e para onde ia, tal como um realizador português muito famoso da velha guarda (do Fonseca e Costa para lá). Com Another Year, quem estranhou as lentes multicoloridas poderá deleitar-se com um cortejo demorado de gente amarga, deprimida e deprimente girando em torno de um casal tão perfeitinho que até mete nojo. Divirtam-se.
Voltamos ao mesmo. Mais triângulos amorosos convertendo-se em paralelepípedos e torcendo-se em decaedros românticos de que Woody Allen parece não conseguir libertar-se, com muita pena de quem o apreciou incondicionalmente durante tantos anos. Mas sem atingir o nível de irritância de filmes anteriores. Menos mal.
Não deixa de ser curioso que se tenha conseguido fazer um filme inteiro sobre um comboio desgovernado carregado com lixo tóxico que acaba por ter interesse apenas ligeiramente superior ao de uma viagem ferroviária entre Barcarena e a Reboleira. Quem se ficar pelos 2:31 minutos do trailer (está lá tudo menos o fim previsível), poupará 95 minutos de vida melhor aplicados a aprender olaria ou esperanto.
Já devem ter reparado que as actualizações por aqui não têm sido muito frequentes. (A sério? Sim, a sério.) E aposto que, depois de lerem a primeira frase, já estão à espera de uma daquelas patetas certidões de óbito de blogues. Mas não a vão ter. Podem remover o vosso cavalinho (ou besta de carga equivalente) da chuva (ou de fenómeno meteorológico igualmente desconfortável). O motivo? Quem precisa de motivos quando se tem heroína? Não! Não era nada disto, desculpem. Mas ficava bem enfiar uma citação de um filme preferido e não resisti. O motivo real é, basicamente, dispersão por outros afazeres que consomem muito tempo. Continuo a amar-vos a todos como filhossobrinhosprimosenteados pessoas que vêm aqui de vez em quando.
E onde quero eu chegar com isto? Aqui:
Há para aí um site novo muito engraçado a que a juventude chama "o facebook". Sei que estão lá todos ou quase. Eu também. O que vai acontecer daqui para a frente é que a rubrica (deixem-me chamar-lhe rubrica) "a cinemateca deu cabo de mim" será trasladada (deixem-me dizer trasladada) para esse tal facebook. Convido-vos a juntarem-se a mim e espero que continuemos a ser tão felizes como ao longo dos três anos anteriores.
Até já.
PS: Quando o facebook estourar, pensamos noutra coisa.
Um dos elementos mais importantes da antiquíssima arte de expressar opiniões vagamente fundamentadas sobre filmes (de forma profissional ou amadora) será a capacidade de identificar elementos inspiradores e fingir que se conheciam muito bem e há muito tempo. "Red" é a adaptação de uma banda desenhada fabulosa de que não sei nada além do que descobri vendo o filme. (Um dos elementos menos recomendáveis da antiquíssima arte... etc, etc... é a sinceridade.) Mesmo sem nunca ter lido o material de origem, parece-me bastante positivo que se recrutem Bruce Willis, Morgan Freeman, John Malkovich e Helen Mirren para passarem quase duas horas aos tiros e a fazer explodir coisas. Que o façam na pele de agentes da CIA reformados com a cabeça a prémio, também pode ser.
Classificação:
De: Robert Schwentke
Com: Bruce Willis, Mary-Louise Parker, John Malkovich
Independentemente dos pergaminhos que acompanhem o realizador chileno Raúl Ruiz, Mistérios de Lisboa é um filme que vê as suas qualidades mutiladas por erros medonhos. A realização é muito cuidada, a estrutura narrativa é cativante (ou tenta sê-lo, não conseguindo totalmente por ser difícil evitar que um filme com mais de quatro horas acabe por cansar) e a recriação de época convence quase sempre. Mas os erros estão lá e vão-nos roendo a paciência ao longo de quase trezentos minutos até ficarmos prontos para gritar. Há os erros nos diálogos. Intermináveis e gritantes pontapés na gramática e falhas na construção de frases, não se percebendo se estavam no texto ou se são culpa dos actores, sem que ninguém os tenha corrigido. E há os actores, claro. Adriano Luz consegue adequar-se no papel de Padre Dinis, mas a maioria dos seus colegas de elenco nem à martelada se adequaria aos papéis respectivos. Maria João Bastos é, no seu melhor, sofrível. Albano Jerónimo começa medíocre e termina como caricatura bidimensional. Ricardo Pereira... Bom, estamos a falar de Ricardo Pereira, alguém cujo principal talento parece ser a promoção dos cuidados dentários pela ostentação constante de uma dentição perfeita. Não a vemos muito no filme porque o encarregaram de dar corpo a um rufia rústico, que arrota de frase em frase e acaba por se transformar num vilão arrependido durão e de cicatriz na face. É tão miseravelmente ridículo como parece. Tão ridículo como Carloto Cotta de peruca e casaca a fazer de senhor setecentista com pronúncia da Brandoa. Ou como Sofia Aparício de dama espartilhada e propensa a desmaios. Ou como vários outros actores nacionais de desempenho doloroso, mais doloroso se tornando quando confrontado com os momentos protagonizados por actores franceses. Talvez os defeitos de Mistérios de Lisboa se expliquem por termos um realizador a fazer um filme numa língua que não é a sua, confrontado com actores escolhidos numa realidade que não conhece. Mas fica a mágoa pelo filme quepoderia ter sido.
Classificação:
De: Raúl Ruiz
Com: Adriano Luz, Maria João Bastos, Ricardo Pereira
E quem diria que Ben Affleck sobreviveria ao estatuto de anedota com pernas de Hollywood para se tornar um realizador quase (por enquanto) unanimemente considerado como sendo muito promissor. Outro realizador qualquer, depois de Gone Baby Gone e deste The Town, não precisaria de provar mais nada, mas, sendo quem é, vão-se sucedendo as referências do calibre: "Sim, o filme é realmente bom, mas..." E os "mas..." referem-se quase sempre à dificuldade de conciliar talento atrás das câmaras com a muito apregoada falta de talento como actor, que nem sequer é digna de crédito (há filmes bons, maus e assim-assim tanto na filmografia de Ben Affleck como na de Robert De Niro; em menor quantidade no que diz respeito ao primeiro, mas é dar-lhe tempo). Admite-se, no entanto, que é invulgar que um actor parta de onde Affleck partiu (esquecendo o Óscar partilhado pelo argumento de Good Will Hunting) e consiga inverter por completo a sua reputação, alcançando o reconhecimento como realizador. Estas coisas não acontecem. Clint Eastwood que o diga.
Está tudo no título. Actividade Paranormal 2 não quer mais do que dar continuidade ao seu bem-sucedido antecessor. Claro que o efeito não será o mesmo porque já sabemos o que esperar (uma sucessão de imagens banais do quotidiano familiar em que, de repente, acontece algo que não deveria acontecer). E isto faz-nos ficar a olhar para o ecrã, procurando portas que possam abrir-se ou fechar-se sozinhas, objectos que comecem a mover-se inexplicavelmente, ângulos que permitam antecipar o pior. Tudo sem música e sem grandes efeitos sonoros, mantendo-se a aparência de imagem captada por acaso (desta vez, com câmaras de vigilância entrecortadas com os vídeos familiares dos residentes na casa). As pontas soltas deixadas no argumento do filme anterior, que se segue a este na sequência narrativa, vão sendo devidamente atadas e agradece-se o esforço.
Por aqui, gosta-se de Will Ferrell. É melhor começar por explicar isto. E gosta-se dele mesmo quando se associa a projectos que desiludem ou que podiam ser mais engraçados do que acabaram por ser. A devoção vai ao ponto de se continuar a gostar de Will Ferrell depois de o ver num filme completamente desenxabido como Melinda e Melinda, mas aceita-se que qualquer actor gostasse de ter um Woody Allen no currículo. Feita a ressalva, diga-se que, desta vez, a confiança não foi traída. The Other Guys (Agentes de Reserva pela alma de uma santa qualquer, padroeira das traduções imbecis) tem realmente bastante piada, como já tinham outras empreitadas de Adam McKay como Step Brothers, Talladega Nights e, acima de tudo, esse colosso da comédia recente que foi Anchorman: The Legend of Ron Burgundy (nunca estreado entre nós por alma de uma santa associada à primeira mas com a tutela das péssimas decisões de mercado). E que as referências insistentes e devotas a Will Ferrell não façam pensar que são menos dignos de louvor os méritos de Mark Wahlberg, Steve Coogan, Samuel L. Jackson, Dwayne Johnson (preferia quando lhe podíamos chamar "The Rock") ou Eva Mendes.
Tanto que prometia. Um cartaz tão colorido, um trailer promissor, banda desenhada como material de origem da adaptação (nem sempre é positivo, mas é bom pensar que sim) e, afinal, Stephen Frears consegue ser propositadamente banal, sem sequer aparentar arrependimento. O talento de Gemma Arterton fica bem patente em vários momentos, quando a actriz não está sentada em cima dele.
A propósito de títulos portugueses idiotas, li há pouco tempo um texto num jornal qualquer em que as distribuidoras se justificavam, dizendo que a "originalidade" se explicava ou pela dificuldade de ser fiel ao título original ou pela necessidade de atrair o público certo para determinado filme. Recorrendo ao título que escolheram para Bee Movie, apetece dizer: 'Tá bem, abelha! Neste caso em particular, qualquer tradutor automático consegue converter Solitary Man num título perfeitamente adequado em português e O Eterno Solteirão atrairá público à espera de uma comédia dos irmãos Farrelly e não de um filme muito agradável em que Michael Douglas consegue acrescentar mais um à lista de motivos para lhe desejarmos as melhoras e para esperar que a sua voz mantenha o timbre por muitos e bons anos.
Classificação:
Solitary Man
De: Brian Koppelman e David Levien
Com: Michael Douglas, Jesse Eisenberg, Imogen Poots
A premissa era suficientemente estúpida para augurar coisas muito positivas com o elenco escolhido. Não falha por completo, mas também não vai além de satisfazer as expectativas mais básicas de que não fosse uma estopada sem graça. Não o é, mas sabe a pouco. O título português "Jacuzzi, o Desastre do Tempo" é suficientemente estúpido para... Não. É mesmo só suficientemente estúpido. Se o objectivo ao atribuir títulos "criativos" como este é conseguir que ninguém veja o filme, porque se dão ao trabalho de o estrear?